
Fotografia de Rogério Ouja. Lixão de Bacabal
As campanhas milionárias são a face
mais nítida desse sistema político clientelista e patrimonialista que cá vigora,
e contra o qual nos insurgimos. Elas irrigam a cidade de dois em dois anos,
comprando ilegalmente o povo, já reduzido à miséria e desalento. A
contrapartida dos milionários “caixas dois” é a colagem de adesivos em carros,
ida a comícios, distribuição de santinhos ou porte de bandeiras ou, o mais
trágico de tudo, a venda direta do voto. Claro que, assoladas pelo desemprego
de anos e necessidades vitais mais básicas negadas, as pessoas tendem a optar
não por quem está melhor preparado e é decente, mas sim por quem tem mais
chance, no caso, quem gasta mais, como em um leilão. Assim, tentam, ao menos,
um alento temporário em suas tragédias pessoais, almejando uma parte de cargo
na prefeitura/máquina, penhorada ao vencedor do pleito eleitoral, geralmente,
quem deu o maior lance no leilão da “ruína e miséria”.
Por meio dessa lógica, não estamos investindo pessoas com mandatos para
gerirem a coisa pública, convencidos por seus programas de governo e
ideologias, mas sim consentindo que o bem comum seja privatizado, literalmente,
comprado ou “arrematado” em leilão para quem deu o maior lance usar e abusar da
“res” (coisa) pública como patrimônio pessoal. Fatalmente, campanhas
milionárias fortalecem nos “vencedores” e em seus patrocinadores o sentimento patrimonialista já arraigado de posse privada do bem público e só podem
terminar em corrupção, com a multiplicação do valor inicialmente “investido” por
meio de desvios, e na manutenção de redes de milhares de “clientes”,
dependentes de cargos para seus sustentos, que são nomeados não por mérito
pessoal, mas por indicação política ou troca de favores. Eis os “tentáculos do
poder” em ação. Nem precisamos dizer quem é o perdedor final desse leilão da
miséria e da ruína em Bacabal, que reduz as pessoas à precariedade da vida e ao
silêncio face a quem torna a “res pública” um balcão de negócios e bolsa de
valores.
“Mas, quem poderá nos salvar?”. Essa ontológica pergunta, imortalizada
pelo programa mexicano “Chaves/Chapolin”, segue válida. Eis uma resposta, por
exclusão. Não adianta nos alienarmos e dirigirmos nossas esperanças e apelos a
uma Bacabal como sujeito idealizado que irá se rebelar de uma hora para outra.
A cidade não é uma entidade viva, mas mero reflexo de nós mesmos, que aqui
exercemos ou penhoramos nossa cidadania, definindo-se assim os rumos coletivos.
Desse modo, também não adianta aguardarmos, messianicamente, algum “herói”
redentor, que no fundo não passará de mais um hipócrita, populista e facínora.
Mas, sou eu, é você, somos nós que estamos lendo estas linhas, que devemos
despertar dessa letargia para dar um basta a esse sistema podre, corrupto e
corruptor. É só nós que podemos, desde que nos organizemos e agindo em unidade
com outras pessoas comuns e honestas, que cuidam de cada centavo de suas
economias domésticas, e também entenderam que devem zelar pelo dinheiro
público, seja por interesses altruístas ou egoístas. Afinal, para quem não é
tocado pela dor do outro, basta ponderar que se a coisa pública está gerida em
conformidade com a Constituição ela poupa nossos recursos privados. É evidente
que, se temos saúde pública não precisaremos das suntuosas e caras clínicas
privadas. Ou nos organizamos e resistimos a essa lógica, apontando novos
caminhos, ou tudo continuará o mesmo sob o sol escaldante de nossa terra, com a
política da ruína e da miséria relegando ao povo a eterna dependência das
migalhas que caem da mesa de banquete dos que se refestelam com a verba
pública, enquanto depredam nossa res
pública. São criminosos os que mantêm a cidade arruinada e a população
miserabilizada, em estado de servidão e vulnerabilidade para que se entregue,
de forma aparentemente voluntária, aos tentáculos do poder desses krakens para ter uma sobrevida.
Em contrapartida, o nosso horizonte comum é uma cidade que gere emprego
e renda, inclusão, igualdade e plena liberdade, restituindo a dignidade e
independência política às pessoas. Desse modo, só há um caminho a seguir:
união, organização e luta coletiva para elevar as consciências e, assim,
garantir que as próximas gestões não serão decididas em um novo leilão. Como
criada já está, agora só precisamos nos juntar e empoderar uma oposição
verdadeira e sistemática a isso tudo, fundada em junho de 2019 e que, desde então, vem atuando na cidade,
despertando as pessoas para o coração do problema. Finalmente, temos uma
alternativa, e é coletiva, não heroica. Até então, quem se apresentou como
oposição, nunca o foi de fato, pois jamais atacou as raízes nefastas do problema
e reproduziu a lógica que dá início a ele: campanhas milionárias. Essa suposta
oposição sempre quis preservar o funcionamento do sistema, apenas mudando quem
o opera, tomando o lugar e se tornando “a situação” gestora da “máquina” com suas
práticas patrimonialistas e clientelistas de espoliação sistemática dos cofres
públicas.
A palavra de ordem é: Chega de clientelismo e patrimonialismo, LIMPE
Bacabal. Esse modo deles triturarem vidas e sonhos não mais operará com o silenciamento
generalizado, conivente e sem oposição de fato.